Ou isto ou aquilo Cecília Meireles Ilustração Fernanda Correia Dias. 1987
Comemorando 25 anos!
Ou isto ou aquilo . Cecília Meireles. Ilustrações Fernanda Correia Dias . 1987
Reuni tudo o que eu sentia de mais autêntico para criar o
objeto que seria o livro.
Transformei a folha em branco numa bandeja. Fui
organizando. Decidi oferecer ao futuro leitor, ao lado da excelência do texto, os
valores que recebi pessoalmente de minha Avó materna e Madrinha de batismo Cecília Meireles.
Livro é
porta, janela, casa, lugar para morar e ainda lindas paisagens coloridas,
horizontais e infinitas, como aquelas que minha Avó Cecília ia desdobrando para eu ver
o mar, o céu e aprender a identificar cada nome, até aquelas que ela levantava
uma pequena folha de papel e eu via muitas formiguinhas reunidas e contávamos
uma por uma...ou aqueles que recortávamos bandeiras ou pintávamos os trajes típicos
de cada país com lápis de cor. Ou aqueles em que aprendi a cantar canções, os que ouvia
histórias que ela ia lendo... E me lembrando de nossas brincadeiras de eco...Neta/poeta,
concordas/sem cordas... Menina/bailarina... Calçando a luva sobre o anel que
não podia tirar do dedo porque era jóia...
Então, fiz do papel uma
bandeja-livro para a ascese do aroma de ouro dos sentidos e para a delícia saborosa
do texto quando atinge a dimensão de estar sendo compreendido. Tal como era e é
para mim, dentro da minha própria cabecinha.
Aquele terceiro e quarto raciocínio
que não era a voz, o baton, o olhar, a essência do corpo, o hálito, a entonação,
nem o que ela lia, mas a revolução que aquilo fazia em mim, no que eu entendia
se acomodando dentro de mim, do que eu já trazia em mim para perto dela, na
minha cabecinha, dialogando internamente e em diversos estados
emocionais, tais como ebulição, alegria, gargalhada, ternura, curiosidade ou sobrancelhas contraídas ou surpresas sinalizando interrogações e exclamações..
Fiz uma bandeja tal como a minha avó parecia ter nas mãos
quando saboreávamos juntas, os lindos textos dos livros de sua biblioteca. Uma
bandeja com frente, recheio e costas: Na frente- a capa- desenhei a borboleta
em seu esplendor e simultaneamente a própria borboleta em estado de lagarta...
antes da metamorfose...sendo observada por ela mesma, entre as letras do
título:Ou isto ou Aquilo. Na quarta capa, a Lagarta sorrindo... sozinha...confiante,
provocando o observador, sendo aquilo antes de ser isto-capa. Lembrando-me que
ninguém passa incólume por uma experiência.Toda experiência é modificadora.Dá musculatura nas asas. Não?
E nunca mais é possível ler o mesmo livro da mesma forma... Mesmo quando crescemos ao lado do livro, vamos observando a pessoa que éramos, o entendimento que tínhamos e as novidades do "agora"....E percebemos ao mesmo instante, como mudamos ou o que nos mudou e o que ainda está nos
modificando ali no livro, ainda mais...!.
No miolo, -recheio da bandeja- ou seja, as cento e sessenta e cinco páginas policromadas foram
tratadas por mim, como a metamorfose, a transformação, um lindo arco-íris, uma
escala de cores... passando até pelo piano preto, onde vi e ouvi muitas crianças lendo e solfejando a partitura e tocando a cançãozinha...ou cantando com os pais e avós
pianistas...E isso é mais explícito, quando no cantinho de cada página do livro fiz um cineminha que só é
percebido por crianças (minha mãe percebeu, claro!), nunca por adultos.
Cinética: fiz um pontinho/ovo passar por larva/lagarta, pupa e borboleta...!
Para
estruturar o miolo, relacionei todos os poemas que naquela ocasião (1982)
encontrei em edições anteriores e distribuí de forma a sonhar... isto... aquilo.... Um exemplo? Bolas/Bolhas; Dulce/Menina
trombuda, etc... e tratei as ilustrações de longos poemas com a mesma premissa: isto... aquilo..E o pensamento de quem lê, ouve, vê...Fixei instantes em meia-páginas ilustradas que transformavam as páginas anteriores e posteriores...a vida passando dentro do livro...
Porque relacionei todos os poemas que encontrei nas edições anteriores e porque elas não traziam os mesmos poemas em todas elas, ao inseri-los, ampliei
a quantidade de poemas. Sempre pensando no princípio de oferecer o ótimo.
Na guarda, e na folha de rosto, um retrato da família a
cores e outro parecido, em preto-branco. Um jogo de sete erros. Porque olhar
para dois retratos é procurar reconhecer, o que, quem, quando...E o “instante”
está permanentemente no livro. Nos dois retratos que são amorosamente impossíveis, porque Incluí simultaneamente: avó-linda
entre suas três filhas e a mesma avó-viúva presente.A mesma pessoa no mesmo retrato... Trisavó-bisavó... que soube que
resmungava nhem-nhem-nhem ao lado de bisnetos e tri-netos que não conheceram... Avô-pai e Avô-padrasto... netos em idades próximas as
idades das próprias mães... e um
cachorrinho coxo... O retrato impossível é imediatamente compreendido pelas
crianças sensíveis que descobrem os “erros” que eu cometi propositadamente para
diverti-las. E ficam ali horas observando e aprendendo a identificar bailarina,
menino... vovó, vovô...moça... viúva... guarda-chuva e vão balbuciando
um texto...
Então, na outra página fiz um autorretrato ao lado da ficha
bibliográfica e na seguinte fixo a borboleta como sólida escultura e minha Avó
Cecília aparece para escrever seu próprio nome: Cecília Meireles. Transformando
o efêmero em permanente, tal como ela fez quando escreveu sobre a Elegia à pequena borboleta...
... Era ela que insistia que à criança só devemos dar o
ótimo.
Fiz uma bandeja. Dei o meu ótimo. Para finalizar o recheio
da bandeja, lembrei-me de uma brincadeira que ela fazia comigo: Concordas ou
sem cordas?
Então criei um banco de palavras para o leitor ampliar o
vocabulário.
Você sabe o que é giesta? Quer saber imediatamente? Vá buscar
o dicionário...
Sentiu que faz diferença esperar para saber? Agora sinta:
Giesta é um arbusto com flor amarela... E as crianças olhavam para mim e para dentro
de si mesmas, me olhavam e sorriam!...Deve ser o que você está fazendo agora. Ampliando
sua curiosidade e vocabulário não é? Então, releia o poema...ou leia o Banco de
palavras ou isto ou aquilo para encontrar vela ou vela... de barco ou de pavio?...
Dei o meu ótimo. Três anos ilustrando. Entreguei os originais na editora todos de uma única vez. O editor recebeu perceptivelmente fascinado. Uma honra para mim, atender ao pedido de minha mãe Maria Mathilde de fazer o meu trabalho sem a interferência de editores.
Dias antes da impressão fui chamada para uma reunião de livreiros e outros e ouvi as criticas de L.S. que na ocasião criava polemicas sobre "tesourinhas". Não aceitei a polemica e mantive as "tesourinhas" que abriam janelinhas...libertavam figurinhas para albinho do poema Figurinhas, para o quebra-cabeça.
Uma ilustração foi subtraída da edição. A bailarina não dança como dançava...e Laura fugiu nua numa borboleta azul! Quando impresso, minhas duas tias maravilhadas me parabenizaram muito felizes.
Quem tem a edição de 1987 não empresta, deixa para neto, sobrinho, filho, em testamento. Recebi Menção Honrosa da Camara Brasileira do Livro pelas ilustrações, mas o maior premio me deu minha mãe que combinou comigo de não revelar para as minhas filhas antes que elas soubessem ler, que eu era aquela...
(Mesmo quando eu observava minhas filhas escolherem para companhia este livro entre filmes, brinquedos e centenas de livros!) Quando questionadas: por quê? respondiam: Eu adoro este livro! E não sabiam que eu a minha Avó Cecília éramos autoras.Levaram para a aula de biblioteca diversas vezes . Só quando aprenderam a ler me perguntaram se eu era aquela mesma Fernanda... Por quê? porque leram o nome da Bisavó e nome de Fernanda na capa do livro... Era eu?
E diante do sim me disseram: Me ensina a fazer livro como você faz? Mas vocês sabem fazer livro... Mas eu quero fazer como você faz..(impresso) .E fizeram.E fazem.
Fernanda Correia Dias
in O livro do livro ou como ilustrei Ou isto ou aquilo. Cecília Meireles. 1987.
demais de lindo...
ResponderExcluir•*¨*•♫♪♪♫•*¨*•.¸¸❤
Telma!
ResponderExcluirObrigada!
Escrevi para comemorar 25 anos, mas Gigantes e Gigantas Cecílianos, que realmente conhecem todas as edições de Ou isto ou aquilo/Cecília Meireles gostaram muito, concluindo que será de grande valor para o juízo dos orientadores/mestres de futuros doutorados.Amém. Beijinhos e saudades da Fernandinha
Ai, ai.... hoje resolvi fazer uma busca deste título por imagens, pois queria ver essa edição, essa capa amarela... meu primeiro livro. Chorei.
ResponderExcluirEstou aqui com lágrimas de saudade, vontade de voltar no tempo. Obrigada, Fernanda, você não imagina o quanto essas imagens, emoldurando as lindas palavras de Cecília, estão marcadas na minha memória. E o quanto agora essas lembranças me são confortantes.
Parabéns e obrigada! que delícia poder dizer isso a você...
Ah, como eu queria encontrar essa edição para ter de volta! Já busquei em dezenas de sebos, mas até hoje nada... Alguma dica?! É um sonho que quero realizar.
Abraços,
Hellen.
Idem, idem. Se alguém tivesse a ideia de reproduzir esse livro, o veria esgotado na mesma hora. Mas precisaria ser igualzinho, com as ilustrações de Fernanda. As ilustrações são tão boas quanto os poemas. As poesias são encontradiças, aqui e ali, mas aquelas ilustrações... jamais!
ExcluirHellen,
ResponderExcluirCom muita alegria ofereceria a você uma edição se tivesse...Faz tempo que aguardo notícias desta edição em livros lidos disponíveis para a compra.
Tudo o que sei é que avôs e avós deixaram em testamentos para netos!
Ah... Venha sempre!
Abraços da Fernanda/ilustradora e das ilustrações na Hellen pequenina com certeza!
Este livro foi minha primeira cartinha para o papai Noel. Compro este livro. Quem souber por favor responder a este comentário.
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