domingo, 7 de setembro de 2014

Casal de Pano . Presente de Cecília Meireles para a neta Fernanda . Foto Fernanda Correia Dias

Fui fazer exame de vista para a renovação da carteira de motorista num prédio vermelho e recuado na rua Haddock Lobo e depois do exame me levei para a Paróquia Divino Espírito Santo. Porque esta igreja muito antiga ficava ali bem perto daquela rua Zemenhof onde as três meninas subiam para a chácara da Jacinta, na rua da Colina com a São Claudio...O Ludwik Lejzer Zemenhof foi o iniciador do Esperanto no Brasil. Entrei na Igreja e gostei muito. Velas acesas para os mortos me levaram e me trouxeram da infância. O fogo é uma força que entra em contato direto com o espírito...Tanto tempo que não sentia aquele vapor de pavio, o calor de todas as velas acesas... e eram tantas em lugar coberto com a parede expondo muitas pequenas vitrines com os retratinhos das saudades. Palavras de muito amor. A nossa Senhora... A Santa Terezinha e a Nossa Senhora dos Navegantes... Por esta mais que todas, Jacinta deve ter passado e fixado os olhos em oração...Claro que sim... agora eram os meus. Dois mares batiam nas minhas pálpebras e a luz apontava do chão os azulejos azuis e brancos das paredes...
Deixei a Paroquia do Divino com a trindade de três espíritos santos e fui caminhando até olhar para uma placa de mármore onde estava o nome Zemenhof . Fui subindo,  e lembrei que o Pedro Nava em Baú de Ossos explicou que a rua da Colina passou a ser chamada Professor Quintino do Vale... Sem a menor chance de ver o mar que minha avó via... e o gasômetro... Um prédio estava de fronte do monte na Colina erguendo-se na frente da São Claudio...Mas eu subi a São Claudio e fui ao onze...que agora é "nove 'e "onze A". Dividiram a chácara. E onde era o pomar, o tanque de pedra, é nove...A casa é o onze. Já tinha visitado com minha mãe... Um vento maravilhoso e frio como porcelana me alcançou e contra ele fui subindo a rua São Claudio até encontrar dois rapazes que me perguntaram espontaneamente se eles podiam me ajudar. Comentei que estava visitando o lugar dos meus antepassados e fui descendo a rua com um deles, que me ensinou a descer mais ainda até chegar na rua da Colina  e descer mais e mais... Me explicando como eu voltaria para a Haddock Lobo.
Passei por uma calçada e fiquei catando no chão aquelas sementinhas vermelhas que os índios da costa brasileira usam para fazer colar...Umas quinze continhas eu catei até o momento que catando me perguntei por quê eu estava catando continhas vermelhas sobre o cimento da calçada.... E me respondi, uma saudade de catar...uma saudade daquelas continhas e aquela gratuidade em surpresa diante dos meus olhos foi me trazendo de volta para a floresta em simultaneidade com o cimento.
Lembrei do casal de pano que minha avó me deu para brincar com ela porque estas continhas também estavam na casa dela...
Desci e segui até a próxima igreja... São Sebastião dos Capuchinhos... Então fiquei maravilhada com os mosaicos italianos... Que deslumbrante! Uma preciosidade! E vi um capuchinho benzendo um homem e uma mulher então tirei da bolsa as pombinhas do Divino e o capuchinho benzeu explicando que ali estava o corpo do fundador da cidade do Rio de Janeiro, o Estácio de Sá, e a pedra da fundação também...
E que mais adiante descendo uma outra rua eu ia encontrar a rua da Estrela.
Fernanda Correia Dias
in Casal de Pano . Presente de Cecília Meireles para a neta Fernanda.
ou os Fundamentos da Fundação e das Epistemes Naturais.





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